Conheça o professor potiguar que transformou projeto social em missão de vidaTrajetória de Francisco Américo Micussi traduz a essência do Dia do Professor ao unir ensino, medicina e compromisso com quem mais precisa
Às vezes, uma experiência pode renovar o sentido de uma missão. Para o médico infectologista e pediatra Francisco Américo Micussi, esse momento tem o rosto de uma criança que ele conheceu durante uma ação voluntária no interior do Rio Grande do Norte. Naquela ocasião, enfrentava desafios para manter o projeto “Pediatria Itinerante” e já cogitava encerrá-lo. Mas o atendimento de um menino em estado grave mudaria sua decisão e o rumo de uma iniciativa criada para oferecer assistência ao público infantil.
Ao perceber a criticidade do quadro do garoto, os profissionais envolvidos na atividade providenciaram o encaminhamento urgente para a capital, onde ele passou por cuidados intensivos até apresentar melhora. Um mês depois, puderam reencontrar a criança e participar da comemoração de seu aniversário.
De uma inquietação a um projeto que criou raízes
A ideia de levar médicos e estudantes a diferentes localidades do estado surgiu a partir da preocupação de Micussi com as dificuldades enfrentadas por famílias que precisavam de atendimento pediátrico especializado. Docente do curso de Medicina da Universidade Potiguar (UnP), integrante da Inspirali, ecossistema da Ânima Educação que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, o médico transformou essa inquietação em realidade em 2018, quando criou o Pediatria Itinerante. A primeira edição aconteceu em julho daquele ano, em São Miguel do Gostoso, no litoral norte potiguar.
Desde então, o projeto já promoveu cerca de 15 mil atendimentos a crianças e cresceu com o envolvimento de profissionais voluntários e alunos que acreditaram na proposta e ajudaram a ampliar o alcance. A estimativa é que tenham passado pelo projeto mais de 2 mil universitários, de vários cursos da saúde, como Medicina, Farmácia, Odontologia, Enfermagem, Psicologia, Fisioterapia, além de cerca de 500 profissionais, aumentando as possibilidades de cuidado e conectando a universidade às necessidades reais da população.
Para o pediatra, a expansão da ação lembra o crescimento do maior Cajueiro do Mundo, localizado em Parnamirim, na Região Metropolitana. “Assim como os galhos da árvore se espalham e criam novas raízes, o projeto foi ampliando sua atuação, incorporando pessoas, saberes e áreas de conhecimento”, compara o doutor.

Ao longo dessa trajetória, a proposta conquistou prêmios nacionais e internacionais. Em 2023, ficou entre os 11 projetos escolhidos pelos médicos no Prêmio Euro Inovação e Saúde, em que concorreram iniciativas da América Latina. Em 2026, o Pediatria Itinerante pleiteia enquanto Liga Acadêmica ao Desafio Educativo da Sociedade Brasileira de Pediatria. Segundo o professor, o reconhecimento reforça a relevância do trabalho desenvolvido nas comunidades atendidas.
Cuidado que vai além da consulta
Nas ações do Pediatria Itinerante, a consulta é apenas uma parte do trabalho. Durante os atendimentos, a equipe também identifica situações que precisam de acompanhamento especializado e orienta as famílias sobre os caminhos possíveis para dar continuidade ao cuidado.
Em algumas situações, a atuação da equipe contribui para viabilizar o início de tratamentos e medidas preventivas, como a suplementação indicada para determinadas condições. O objetivo é fazer com que o atendimento não termine quando a consulta acaba, mas represente um primeiro passo para que a criança e sua família encontrem o cuidado de que precisam.
Essa aproximação com a realidade dos territórios ajuda a compreender que o acesso à saúde envolve mais do que a presença de um profissional. É preciso ouvir as famílias, entender suas dificuldades e oferecer orientações que considerem as circunstâncias de vida de cada paciente.
Lições que ultrapassam a sala de aula
Para os estudantes de Medicina, participar do Pediatria Itinerante significa aprender em um cenário diferente daquele encontrado nos livros e nos consultórios convencionais. Ao lado dos professores e demais profissionais, eles têm a oportunidade de atender crianças, conversar com familiares e perceber como o contexto social influencia a saúde.
A experiência também contribui para desenvolver habilidades relacionadas à dimensão humana da prática médica: escutar com atenção, olhar nos olhos, acolher sem julgamentos e explicar de maneira compreensível. São atitudes que promovem a construção de uma relação de confiança entre profissional, paciente e família.
Micussi costuma observar os efeitos desse aprendizado em relatos que recebe. Um deles veio de uma pessoa que, ao ser atendida por um médico ex-aluno de Francisco Micussi, reconheceu uma diferença na maneira de conduzir a consulta: “A gente sente que os alunos que passaram pelo senhor atendem diferente”. Para o professor, esse tipo de reconhecimento demonstra que a formação médica precisa ir além do domínio técnico. Conhecer doenças, interpretar exames e definir condutas é fundamental, mas a capacidade de acolher e compreender quem está diante do profissional também faz parte do cuidado.
Missão de vida
Ao olhar para o percurso do projeto, Micussi encontra nas experiências vividas com as crianças e suas famílias a motivação para continuar. A lembrança do menino que precisou de atendimento urgente permanece como um marco, mas também como símbolo de tudo o que pode acontecer quando o cuidado chega a quem precisa.
“Precisamos, primeiro, saber acolher e ouvir. Às vezes, as pessoas precisam ser escutadas. É isso que procuramos ensinar tanto na prática docente quanto nas ações do Pediatria Itinerante”, afirma.
Mais do que ofertar assistência pediátrica a diferentes comunidades do Rio Grande do Norte, o projeto mostra que a formação de um médico passa pelo compromisso com a vida. “É nesse encontro entre conhecimento e humanidade que o cuidado ganha seu sentido mais profundo”, reflete o professor da UnP/Inspirali, Francisco Micussi.


